Até que eu te conheci, a vida era um quintal aberto, desses onde a infância corre descalça e a dor não sabe entrar. Não havia lágrimas, nem sustos, nem esse nó na garganta que hoje atende pelo teu nome. Aprendi cedo o afeto, o toque manso, a ternura ensinada pela mãe, esse primeiro amor que nos vacina contra o mundo. Eu vivia bem. Feliz. Quase ingênuo.
A vida era bonita porque ainda não conhecia a solidão. As alegrias vinham sem pedir licença, a felicidade morava em coisas pequenas, e o coração não carregava cicatrizes. Eu nunca sofri, eu nunca chorei. Até você chegar como quem acende um fósforo em noite seca.
Te conhecer foi descobrir a dor com sobrenome, foi enxergar a vida por um prisma torto, onde o amor vinha em migalhas, mas ainda assim parecia banquete. Não minto: fui feliz. Mesmo com pouco amor. Fui. E só depois entendi, tarde demais, que não se ama quem fere com tanta precisão.
Hoje penso em você mais que ontem, muito mais. E isso dói. Dói porque amar também é aprender a mandar embora. Vá. Vá para longe da minha pena. Há dores que a gente só cura expulsando do peito quem um dia chamou de casa.
