terça-feira, 26 de abril de 2011

Um sorriso como o seu

É um segundo da mais absoluta beleza. Dei sorte e flagrei novamente um desses momentos. Geralmente, eles acontecem na rua. Lá vinha a loira. Minhas retinas fatigadas fecham em close. Que maravilha. Aquele sorriso indecifrável. Porque não se trata de um sorriso besta de alguma felicidadezinha passageira, de um ganho financeiro, da sorte no amor. É mais enigmático.

Muito mais do que o sorriso da Monalisa, que reza a lenda, era o sorriso de uma grávida. Não é o sorriso dos paraísos artificiais dos remédios tarjas pretas ou de alguma pastilha psico-délica. Nada. Não é apenas o sorriso de quem recebeu uma notícia promissora, viu o regime fazer o efeito pretendido, uns quilos a menos, nova silhueta, que beleza! Nem chega perto.

Também não é o sorriso de quem ouviu uma cantada de amor com requintes de vida eterna.
Não é o riso de quem ouviu uma piada, um “gostosa”, “tesouro”, como dizia o Didi Mocó. É bem mais profundo. O poeta Manuel Bandeira, em correspondência com o cronista Rubem Braga, dizia que se tratava de momento raro, ra-ríssimo, era mercadoria que não tinha preço, êxtase, coisa mais linda... Mas não arriscou um diagnóstico. Nem entrou no mérito, observou, e pronto, basta.

Será que a moça que vem na calçada ri de alguma coisa que despencou-lhe, naquele exato instante? Alguma coisa muito engraçada dos tempos em que ela era uma pequena, uma piveta, quem sabe uma queda de uma perna-manca ao subir em uma casa destelhada na frente da casa?

Às vezes parece um pouco com um certo sorriso de maldade. Uma pontinha de vingança, quem sabe. Mas que nada. Só parece. Nada disso. À medida, mesmo naquele rápido segundo, que os lábios voltam ao normal, desfazendo o sorriso, vê-se que não tem nada de maldoso naquele retrato.

Muito menos é tingido pelo gloss sabor uva da ironia ou o batom vermelho das vingativas. Não, não é nada irônico, nada ressentido.

Quanto mistério num sorriso de tão pouco tempo. Daria uns cinco anos de vida em troca do esclarecimento desse enigma de um segundo. Chego até a refletir, cofiando a barba rala: será que é consciente, será que elas sabem que o misterioso sorriso toma conta do rosto naquela hora?

Não, também não é só sexo. Por mais que o gozo, a pequena morte, como dizem os franceses, faça bem à pele e seja motivo do carnaval particular no peito, não é esse ainda o motivo isolado daquele sorriso, um sorriso mais invocado do que o sorriso do gato de Alice.

Gastaríamos telas e mais telas, em especulações ainda sem rumo. Coisa de agoniar o juízo. Melhor mesmo apreciar, estoicamente, esse lindo mistério das crias das nossas costelas.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Trabalha jornalista ou vai pro tronco

O jornalista é o único animal do planeta que quanto mais avança a tecnologia mais o desgraçado trabalha. Isso é o que mais perturba e intriga. Agora mesmo, quinta-feira, feriadão, 20h40, e eu em cima dessa máquina.


Todos evoluíram com os tempos modernos e novos sistemas. Até o burro do campo, se livrou do arado pré-histórico.

Nós, muito pelo contrário, aumentamos a nossa carga: fazemos o jornal, atualizamos o blog, perguntamos e ao mesmo tempo filmamos o entrevistado...

Cobramos escanteio, corremos para cabecear e no percurso entre a bandeirinha do córner até a pequena área ainda mandamos uma informação no Twitter aos seguidores das obsessivas páginas virtuais.

O pior: o furo, essa mercadoria de luxo dos jornais, agora gira na velocidade do minuto a minuto. Parem as máquinas, quero meu furo -com 24 horas de vida, pelo menos- de volta.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Exclua-me do seu Orkut

Caro amigo fofo-lete, você acaba o casamento, o romance, o caso, o rolo, mas continua acompanhando a vida do(a) ex no Orkut, no Facebook, no Twitter, nas redes sociais mais intimistas? Um desastre. Podendo evitar, evitem.

Corra fora, rapaz! Corra, doce gazela! Corra! Aproveitem que os laços foram cortados no plano real e passem a régua também nas espumas da vir-tualidade. O mais é sofrimento à toa, reacender a fogueira do ciúme, masoquismo, perversão, sacanagem. Um risco que não vale a pena.

Depois não digam que foi por falta de aviso.

Qualquer recado ou post, mesmo os mais inocentes, viram um inferno em Terra. Para completar, tem sempre alguém mais sacana ainda e entra no jogo, só por ruindade, dando linha na pipa da maldade.

Aperriar o juízo pra quê?!

Prefira não, amigo, caia fora mesmo, Luluzinha.

Não adianta nem tentar dizer que não liga, que é apenas virtual, que leva na boa, que acabou tudo bem e que é civilizadíssimo (mentiroso, descarado). Melhor evitar aperreios no juízo.

Você já prestou atenção, na fartura de tragédias que tiveram como espoleta da discórdia num simples comentário na internet, uma foto abacados no face, uma alteração no status do relacionamento?

E tem outra: precisa ser muito tranqüilo para não ficar fuçando a vida do(a) entidade chamada ex. Quem resiste aí levante o dedo.

Melhor evitar o brinquedo assassino chamado ciúme, esse bicho de chifre.

Sim, tem de ser forte para cair fora, para bloqueá-lo (a), para dar um tempo inclusive na amizade forçada. Não há civilização no fim do amor: a barbárie e a selvageria sempre prevalecem.

Não basta o sofrimento mais do que real da ressaca amorosa? Basta. Como recomendava a canção das antigas, risque o meu nome do seu caderno, pois não suporto o inferno do nosso relacionamento fracassado.

Ninguém segura essa onda. Claro que só uma minoria maluca chega à violência, ao inconcebível. A maioria, mesmo silenciosa, sofre horrores, se acaba, “o velho pote até aqui de mágoa”, como diria Chico Buarque. Faça não, caia fora, faz bem para manter a sanidade.

Risque o meu nome do seu Orkut e diga ao Facebook que não temos mais um relacionamento…